Diabetes Weekend

Marina de Barros Collaço

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Eu sempre tive diários, escrevia naqueles caderninhos com cadeados de coração sobre os meus sentimentos. Comecei a fazer isso quando meus pais se separaram e desde então nunca parei.Aqueles textos de quando eu tinha 14 anos não são menos pesados dos textos que eu comecei a escrever após o meu diagnóstico. Confrontar seus sentimentos requer uma honestidade autoral enorme e acho que fui treinando isso ao longo dos anos. Sempre aceitei minha doença e sempre aceitei o meu tratamento mas acredito que isso só foi tão fácil como foi porque eu sempre aceitei os meus medos, meus traumas e também minhas derrotas.

Eu nunca tive problema em dizer “nossa eu sou muito mal na direção. Bato meu carro em todas as paredes, não sei fazer baliza, não nasci pra dirigir”, e isso nunca me impediu de ter um carro e ir para qualquer lugar. Acho que como eu sempre soube que a direção não é o meu dom maior, tenho cuidado e mais atenção do que o normal, e acaba dando tudo certo.Isso acontece na minha vida com o diabetes. Tenho total consciência, e sempre tive, de que tenho uma doença sem cura que requer muitos cuidados e que pode me matar quando ela quiser. Em nenhum momento da minha vida após o diagnostico eu subestimei o diabetes. Sei que é uma doença pesada e trata-la com menos importância do que ela merece não me ajudaria em nada.

Durante uma viagem com amigas eu sempre ficava extremamente preocupada com hipoglicemias sem sintomas. Me imaginava nos piores cenários possíveis, sem ninguém saber que eu era diabética e morrendo ou entrando em coma. Isso fez com que eu tomasse a decisão de sempre contar, para todo mundo ao meu redor, como era a doença, o que eles deveriam fazer em casos de hipo e de hiper, mostrava meus medicamentos, minha bomba, ensinava os primeiros socorros e até como aplicar insulina ou um cateter da bomba. Isso foi bem aceito pela minha amiga Nathy, ela sempre soube como se virar comigo e isso me trazia uma segurança no coração indescritível (obrigada Nathy por todos os todynhos que você já pegou pra mim). E eu sempre me senti super preenchida com esse amor e cuidado que eu tinha.

Mas alguma coisa mudou nesse final de semana. Vivemos 4 dias de cumplicidade.Vivemos a Colônia Diabetes Weekend do Dr. Levimar Rocha Araújo, em BH.

O blog me deu muitos amigos diabéticos, alguns reais e outros virtuais. Os amigos virtuais sempre estiveram muito presentes na minha vida, quase que todos os dias nos falávamos e nos apoiávamos em problemas diversos. Nunca imaginei que conheceria o Alesson ou o Thiago, que moram há tantos Km de distância de mim. Nunca imaginei que estaríamos todos juntos em um mesmo evento. E a colônia nos proporcionou isso.Parecia um sonho. Éramos uma trupe dividida em grupos no aeroporto de BH. Cada um chegando de um cantinho do Brasil, em horários diferentes, mas com o mesmo destino: A melhor viagem das nossas vidas. Nosso grupo de Whatsapp estava tomando vida de verdade e começou a ser possível encostar, abraçar, ouviu a mesma voz dos áudios só que agora com o sorriso real entrelaçando todos os sentimentos. Eu podia vê-los, tocá-los, ouvi-los e senti-los e isso nunca passou pela minha cabeça que aconteceria.E aconteceu. O medo do novo acompanha todos os seres humanos e claro, ficamos com medo das regras da colônia, ficamos com medo de seremos tratados como crianças que precisam medir na hora certa, com horários para comer, tomar banho, falar, se expressar e isso assustou a gente. Mas essas regras foram as responsáveis por nos dar disciplina e por nos mostrar que uma vida sem regras é impossível de funcionar perfeitamente.

Éramos mais de 100 pessoas com diabetes. Aquele aglomerado de gente na recepção do hotel me anestesiou e eu só pensava: Sério que todas essas pessoas são como eu?Passei a observar os pequenos detalhes daquele mundo de gente. Na fila para o check in duas moças tiraram seus glicosímetros da bolsa e fizeram a ponta de dedo ali, de pé, e uma delas estava em hipo e a amiga saiu para pegar um suco. Você tocava no braço de alguém para chama-lo e, inevitavelmente você encontrava um sensor de glicemia. Reparando nas calças e bolsos, se via muitas bombas de insulinas penduradas. As pessoas levantando a blusa para aplicar insulina na barriga com a naturalidade que deveríamos ver. “Pisei em um chiclete”. Quando levantei o pé para checar o que era, não se tratava de um chiclete e sim um sensor libre que deve ter sido perdido por alguém. Coisas que não aconteceriam no mundo real.

Aquela sensação de pertencimento tomou conta de mim. No quarto com 4 meninas diabéticas a rotina automática de acordar e medir a glicose me enchia silenciosamente. Me sentia cada vez mais completa.Encontrar os leitores do blog que tiveram tanto carinho por mim me deram a percepção de que meus textos também fazem bem para outras pessoas como eu.A vontade de chorar de alegria me invadia toda hora. E nos primeiros dias a gente se segurava, eu me segurava, tolice minha. A cada atividade proposta pelos médicos um novo sentimento alimentava nossas almas. Cada relato de alguém que parecia tão próximo e igual a sua vida te renovava com sentimentos bons. E rapidamente percebemos que a internet não causou nenhuma barreira entre a gente. Nossa amizade era verdadeira, intensa e surreal.

Na noite da festa encostei no batente da porta do quarto da minha amiga Priscila. Ela estava em pé trocando o cateter da bomba enquanto falava sobre os seus problemas renais para a Fernanda, que ouvia com atenção sem fazer perguntas estranhas porque ela sabia e entendia o que a Priscila falava. A Tássia estava na cama fazendo um teste de ponta de dedo porque sabia que iríamos para uma festa e é importante saber como vc está. A Ester estava comigo na porta e mexia no celular, preparando o pau de selfie para a famosa e corriqueira foto das amigas saindo para a balada. A Nati, Sis e Amanda esperavam que todas nós terminássemos de cuidar da nossa doença para podermos descer e aproveitar a noite. Nessa hora fechei os olhos e me permiti sentir aquele cheiro de insulina, aquelas vozes naturais falando sobre um problema renal, o clique do lancetador furando a pele e permitindo que uma gota de sangue nos contasse sobre uma glicemia. Foi inebriante.

Essa cena me emocionou e foi então que percebi que com elas eu estava realmente no meu mundo. Eu não estava ali me adaptando, não estava ali com uma pessoa que entendia que eu precisava trocar o cateter da bomba, eu estava ali com pessoas que tinham que trocar também. Eu estava ali com pessoas que precisavam medir também. No quarto de um hotel na Argentina com a Natália (minha amiga saudável) eu me sentia completa, amada e compreendida. Mas no quarto do hotel da colônia esses sentimentos transbordaram do meu coração. Aquilo era o pouquinho que faltava para preencher todo o meu copo. Naquela hora não havia metade do copo cheio ou vazio, ele estava transbordando.Era um sentimento de totalidade.

Sou uma pessoa que gosta de ajudar a quem precisa, mas ajudar a Robertinha a conseguir tudo o que ela precisa para a viagem de premiação que ela ganhou me deu um sabor especial de vitória. A história de vida dela toca o coração de qualquer pessoa, mas quando você tem diabetes parece que ela invade sua alma. Nunca tinha passado por isso. Todos os sentimentos são tomados de uma intensidade que eu nunca imaginei que pudesse existir.Eu sempre aceitei a minha doença, sempre me adaptei muito bem ao mundo, mas nesse final de semana pude viver um conto de fadas diabético onde éramos a maioria.

As perguntas sobre “Quantos anos de Diabetes você tem? Você usa bomba? Como você descobriu? Você já teve cetoacidose? Você tem alguma complicação?” soavam tão naturais quanto as perguntas “onde você mora, o que faz no trabalho?” Ali não havia julgamentos, não havia ignorância, não havia falta de informação, não havia preconceito, não havia nojo, não havia medo de agulhas, não havia curiosidade, e não havia as perguntas clichês que a gente é exposto no mundo real. Como disse um grupo no teatro apresentado: vivíamos na “diabeticolândia”. Estranho eram as pessoas que não tinham diabetes.Ainda sinto cada lágrima que derrubei nesse final de semana.

Escrever esse texto sem molhar o teclado foi impossível. Minha vó dizia que quando você chora de felicidade é porque sua bondade não está cabendo mais no seu corpo e ela precisa sair. E a minha tem gosto de conquista. As minhas lágrimas estão tão doces e quentes quanto nós naquele hotel.

Quero agradecer à nossa “fada madrinha”, o Dr. Levimar por ter criado essa colônia e por ter me convidado a participar desse evento inenarrável. Impossível pensar que esse projeto teria sido criado por uma pessoa completamente saudável. Seus muitos anos de Diabetes deu a sensibilidade de entender exatamente do que a gente precisa.E queria citar o nome de todas as pessoas que me deram um abraço apertado mas não vou fazer para não correr o risco de ser injusta.Cada abraço, cada carinho, cada preocupação com a minha glicemia, cada risada boba, cada foto tirada, cada reclamação da comida, cada contato físico, cada história, cada depoimento que eu vivi ali somaram dentro de mim e com certeza hoje eu posso dizer que me sinto muito mais diabética.

Se eu fosse completamente saudável não viveria essa experiência. Não teria a oportunidade de conhecer as pessoas que conheci.Se eu fosse completamente saudável não seria quem eu sou.

E eu amo ser a Marina de Barros Collaço,Diabética tipo 1, há 16 anos.
Blogueira e autora do Livro Diabética Tipo Ruim.


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